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O Evangelho do Empreendedorismo – Seja CEO de você mesmo!

  • celsonhupfer
  • 20 de set. de 2025
  • 10 min de leitura

Gosto de cortar meu cabelo nessas barbearias de redes que hoje existem em cada esquina de São Paulo e confesso que não sou muito fiel a nenhuma delas. Elas me atraem por alguns motivos bastante simples: estão em toda parte e sempre tem uma que dá para ir a pé; invariavelmente, são mais baratas que as boutiques; em muitas delas é possível chegar e ser atendido quase que imediatamente, sem  precisar de hora marcada, o que eu detesto quando se trata de cortar cabelo (a gente já tem que marcar hora prá tanta coisa!); a maioria delas tem rotatividade muito alta de barbeiros e, como eu gosto de histórias pessoais, sempre tem uma nova para ouvir. Aliás, meu gosto por histórias novas não se restringe aos salões de barbearia: também gosto das histórias de motoristas de Uber, taxistas, manobristas de estacionamentos etc. São pessoas que cruzam com muita gente no seu dia a dia do trabalho e sempre têm algo prá falar. Às vezes a conversa é uma verdadeira roubada, mas, no geral, o risco vale à pena.

Outro dia, uma dessas histórias de barbeiro me deixou especialmente interessado. Na verdade, ela não tinha nada de especial. O que me atraiu nela é que parecia resumir, como nenhuma outra que eu ouvira até então, os sonhos e aspirações de sucesso de vida de muitos jovens das periferias das cidades grandes. Da maneira que podem, são meninas e meninos adolescentes ou recém entrados na vida adulta, que correm atrás do sonho de visibilidade e riqueza, os mesmos que veem propagados por outros da mesma faixa etária nas mídias sociais. Todos se denominam empreendedores e dão muito ouvido às pregações dos novos “evangelistas” de que, se você se esforçar de verdade, terá o sucesso que tanto busca. Este é medido por vidas glamurosas, com muito dinheiro, carrões, viagens inesquecíveis, muitos cliques e tudo que a fama e a grana podem dar.

Meu barbeiro desse dia era o Vanderson (nome fictício). Com seus 32 anos, ele já estava com idade relativamente avançada para o perfil desses novos empreendedores. Estava na sua profissão atual há não mais que nove meses. Antes disso, já havia tentado a vida como jogador de futebol, entregador de encomendas numa plataforma de aplicativos, lavador de pratos e garçom numa lanchonete perto da Avenida Paulista. Agora, era também patrocinador/empresário de potenciais meninos jogadores de futebol da comunidade em que morava nos confins da Zona Sul de São Paulo, gastava algum dinheiro tentando a sorte nas bets (disse que não era viciado) e, nas horas vagas, compunha raps e funks, cujos teasers enviava para produtores musicais via Whatsapp, bem no estilo dos grupos de compositores de música sertaneja da região de Goiânia (para quem tiver interesse, sugiro ouvir o podcast #23 do UolPrime de 20/06/2024). Só não entrou para o roubo e clonagem de celulares ou outros crimes, porque tinha muito respeito por sua mãe evangélica e também porque lhe faltava coragem. Não conseguiu completar o ensino médio e já estava no seu terceiro casamento. Era pai de duas meninas, ambas com suas esposas anteriores, mas fazia questão de ter alguma presença, apesar das dificuldades logísticas e financeiras. O que mais chamou minha atenção em sua história, no entanto, foi uma frase que disse em certo momento: “eu ainda vou ser um milionário”! Minha reação foi de um mix de tristeza e perplexidade. Eu não consegui deixar de reparar no seu genuíno esforço na busca por uma vida melhor, ao mesmo tempo que me dava conta do quão distante ele estava desse seu sonho. Também compreendi que, apesar de seu ferramental limitado, ele se mantinha firme em sua busca, mesmo diante dos reveses que a realidade ia lhe impondo, o que a literatura popular e as consultorias de RH denominam de resiliência. A perplexidade se devia à percepção de que ele não se dava conta da quase impossibilidade de seu sonho. A mim, parecia que sua história era uma espécie de jogo de apostas e só isso explicava por que ele continuava tentando alternativas diferentes o tempo todo. Não sei se consegui evitar que ele percebesse a minha reação, já que tive dificuldade de continuar a conversa.

A história de Vanderson é a realidade de milhões de jovens das grandes e médias cidades brasileiras atualmente. Eles são diferentes de um outro grupo grande de jovens e adultos que nem trabalham e nem estudam, aqueles que, em função de seu desalento, integram uma outra tragédia, a dos que as estatísticas dão o nome de nem-nem. Em relação a estes, pode-se dizer que esses jovens estão em vantagem, porque ainda não perderam a esperança. Também são muito diferentes daquele outro grupo, relativamente cada vez menor, de pessoas que conseguem trabalhar protegidos por algum tipo de contrato e, por isso, se beneficiam de salários pagos regularmente e direitos trabalhistas garantidos pela legislação. Em relação a estes, os milhões de Vanderson’s cultivam um olhar ambíguo: de acordo com eles, a sua vida de “empreendedores” lhes dá a liberdade que falta aos outros, mesmo quando essa liberdade esteja acompanhada de precariedades. Ao mesmo tempo, muitos invejam a segurança e estabilidade de renda destes.

Individualismo, Responsabilização e o Evangelho do Empreendedorismo

A expressão “Evangelho do Empreendedorismo” designa um conjunto de ideias e práticas que se apresentam quase como uma religião secular do mundo do trabalho contemporâneo. Ela sustenta que cada indivíduo é responsável por sua vida, sucesso e fracasso, e que empreender não é apenas uma escolha profissional, mas um destino moral e existencial. É “evangelho” porque se propaga em tom de fé, promessa de salvação, meritocracia e prosperidade. Alguns até a denominam de Teologia da Prosperidade e Teologia Coaching (ver Teologia Coaching – A Ilusória Ideologia de que Nascemos só para Vencer, de Ranieri Costa).  Para entender como chegamos até aqui enquanto projeto social, gostaria de recapitular algumas etapas da evolução do capitalismo e sua ideologia desde os primeiros anos da modernidade. Para não cansar o leitor, vou fazer isso de maneira bem rápida, correndo o risco de ser superficial.

Quando o homem europeu, saído da Idade Média, decidiu conquistar o mundo através das viagens de descobrimento, o filósofo italiano Pico della Mirandola, decretava que o seu tempo era o da ação. A principal tarefa do homem era a de “fazer-se a si mesmo”, inaugurando a narrativa que valoriza o indivíduo como agente exclusivo de sua trajetória. Antes dele, o Cristianismo já apontava que cada vida individual era importante e, mais ou menos na mesma época de Pico, o Calvinismo ressaltava o esforço individual através do trabalho como possível sinal de salvação. Posteriormente, Adam Smith reforçou essa lógica ao apontar uma espécie de “egoísmo iluminado” como fundamento do equilíbrio social. Como o sujeito também tinha valores morais, entre os quais a empatia (Teoria dos Sentimentos Morais), se todos se orientassem por esse egoísmo iluminado, uma certa “mão invisível” (A Riqueza das Nações), se encarregaria de garantir o equilíbrio e a paz social. Algum tempo depois, o utilitarismo de Bentham e Mill consolidou a centralidade da ação individual na definição do que é certo. Todos buscamos a máxima utilidade para nós e para a sociedade e aqueles que mais se esforçam poderão se beneficiar mais dessas utilidades. O Estado deveria atuar apenas como o garantidor das liberdades de cada um, liberdades necessárias para que a utilidade de fato seja maximizada. Mais para frente ainda, a psicologia e a psicanálise elegeram a autonomia do eu como meta fundamental do indivíduo e construiu-se toda uma terapêutica nessa direção. À primeira vista, estes desenvolvimentos se apresentam como emancipatórios, uma vez que libertam o indivíduo da sujeição da autoridade de reis e religiões. Na prática e diante do desespero do sujeito contemporâneo deixado à deriva, parece que a carga colocada sobre os seus ombros vai se tornando cada vez mais insuportável.

A partir dos anos 1970, o neoliberalismo cristalizou essa mentalidade e associou a ela a ideia de meritocracia: todo o mérito é para aqueles que mais se esforçam, independente das condições de largada de cada um. Em sua essência, ela deturpa a noção darwinista de “sobrevivência do mais apto” para uma forte conotação moral, segundo a qual são “os mais esforçados” que sobrevivem. Essa ideologia foi incorporada às estratégias, planejamentos e dizeres das empresas desse final do século XX. E isso teve um enorme significado para o que se seguiu a partir daí: o emprego foi substituído pela “empregabilidade”; a carreira tornou-se um projeto exclusivamente pessoal, sem responsabilidade da empresa; o treinamento tornou-se “autodesenvolvimento”; o empregado ou trabalhador virou “colaborador”, aparentemente desejando substituir o caráter vertical do termo anterior para dar lugar a uma maior horizontalidade, que, no entanto, vem acompanhada de menos compromisso também; este mesmo colaborador agora deve ser “empreendedor”, principalmente, empreendedor de si mesmo; e, mais recentemente, ser CLT é ser privilegiado, “coxinha”, acomodado. A ideologia do abandono a si mesmo recebe nomes sofisticados: autogestão, autoliderança, marketing pessoal, empreendedorismo, resiliência, autodisciplina etc. Tudo para dizer que o “homo economicus” do neoliberalismo está só!

Consequências e Precariedade

Somos todos chamados a ser empreendedores e, ecoando o vaticínio de Pico dela Mirandola sobre o homem da modernidade, antes de tudo devemos ser empreendedores de nós mesmos. Enquanto isso, o Estado, que se propôs a garantir um mínimo de humanidade e equilíbrio ao capitalismo, depois dos horrores e barbárie da industrialização dos séculos XVIII e XIX, viu uma espécie de mão invisível eliminar progressivamente o seu poder centralizado, especialmente a partir dos anos 1970. Foi chamado de “Estado babá” (Nanny State), por ser paternalista, condescendente, superprotetor e acusado de interferir nas escolhas pessoais de cada um. Na mesma linha, a empresa foi se retirando das responsabilidades, tanto para com seus colaboradores quanto para seus consumidores. Talvez uma boa metáfora para essa desresponsabilização da empresa possa ser encontrada dentro dela mesma, nos seus serviços e sistemas de relacionamento com clientes (SAC, Telemarketing, Ura, “Converse com nossa IA”, chatbot etc), como sugeriu Mark Fischer, em Realismo Capitalista: do outro lado da linha ou do chat não há ninguém que saiba o que fazer e ninguém que fará alguma coisa. Ao cliente, “sobra a raiva, que é uma agressão no vazio, porque é dirigida a alguém que é igualmente vítima, mas com quem é difícil estabelecer empatia...não é que não haja nada lá – é que, o que há lá não é capaz de exercer responsabilidade”. O trabalhador, que também se depara com a não responsabilidade da empresa, enfrenta ainda a certeza da vigilância permanente, cujo panóptico (Foucault) das tecnologias e algoritmos atuais atuam quase como o Grande Irmão de Orwell (“demita um extremista!”). Para a empresa, este trabalhador vigiado só interessa enquanto puder estar no que as matrizes de desempenho denominam de “quartil superior”: satisfatório não é mais satisfatório! Somente a nota 5 ou o “five stars” é o novo “satisfatório”, sendo você trabalhador formal, informal, motorista de aplicativo, youtuber, influenciador etc. É um “rating” (sistema de avaliação de crédito ou social) que ainda não determina o acesso a crédito, educação, prioridade em filas de atendimento, como já é comum em economias de Estado Centralizado, como a China. Não perca por esperar, porque o Capitalismo de Vigilância (Shoshana Zuboff) já está em toda a parte.

O empreendedor de si mesmo também deve ser flexível, nômade, espontâneo. Não basta mais o conjunto de habilidades que, no passado, lhe garantia uma carreira progressiva. A impermanência do trabalho e das empresas requer que ele periodicamente adquira novas habilidades, enquanto pula de projeto a projeto, de empresa a empresa, de trabalho a trabalho, como mostrou brilhantemente Richard Sennett, em seu A Corrosão do Caráter. Educação é um processo para toda a vida; treinamento é para toda a vida profissional; o trabalho nunca termina porque você leva o trabalho para casa; trabalha-se em casa (home office) e fica-se em casa no trabalho (todas as distrações que grandes empresas oferecem para que você não precise sair do trabalho – áreas de descanso e convivência, que frequentemente incluem coolers com bebidas, mesas de ping-pong etc.). O trabalho te acompanha até nos sonhos!

Se esses trabalhos não trazem a satisfação de todas as necessidades ou desejos materiais, já que a desigualdade crescente derrubou rendimentos ao mesmo tempo em que as mídias sociais e a publicidade exacerbaram os desejos, você pode se endividar e, quando não consegue mais pagar, existirá sempre um “renegocia aí!” para te devolver ao sistema. Se nada disso der certo, restam o vício, a depressão e o suicídio. Não é de graça que os transtornos mentais e os suicídios tornaram-se os grandes abreviadores de vidas entre os mais jovens em todo o Ocidente: quase 50 mil pessoas se suicidam anualmente nos EUA e outros quase 100 mil morrem por overdoses de opiáceos. No Brasil, os afastamentos por transtornos mentais cresceram de 60 mil para mais de 470 mil entre 2014 e 2024.  Para o neoliberalismo, contudo, esses transtornos devem ser tomados como uma questão puramente médica e não de modelo, porque, além de assegurar novos mercados (indústria farmacêutica, terapeutas, consultores de ambiente organizacional, coaches e vendedores de autoajuda), o problema continua com o individuo e sua incapacidade de resistir e de se superar. O fracasso é individual e você é o único culpado. Afinal, você é ou não é empreendedor de si mesmo?

O discurso do empreendedor exalta a liberdade individual não somente para aqueles que escolhem ganhar a vida à margem do mundo do trabalho formal. Cobra-se dos próprios assalariados o espírito empreendedor, ser CEO de si mesmo, ser inovador, pensar fora da caixa. Esse discurso ignora as condições materiais e sociais necessárias para que as pessoas possam exercer seu direito à liberdade. Como aponta o Prêmio Nobel de Economia, Amartia Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, para que o direito à liberdade se torne real (e não apenas formal), é necessário que outros direitos sejam assegurados, como o direito a uma boa educação, saúde, renda mínima etc.: a todos é assegurado o direito de dizer não ao chefe, desde que não se precise do emprego; todos têm o direito de ir e vir, desde que tenham dinheiro para pagar a passagem. Da mesma forma, todos têm o direito de sonhar com uma vida melhor, desde que tenham as condições materiais e sociais para tanto. É no mínimo cínico vender o conto do empreendedorismo para quem está sem emprego ou não ganha o suficiente. Não é por acaso que a individualização da culpa pelo fracasso e as pressões por performance (não apenas resultados financeiros, mas também notas altas em avaliações) resultem nesta verdadeira epidemia de transtornos mentais e suicídios que se observam em todas as economias do Ocidente.

A questão é que minha visão acerca do futuro é, por vezes, excessivamente sombria. Acredito que teremos que piorar muito ainda para melhorar. De onde se poderia esperar algum tipo de reação, a política, esta me parece totalmente refém da ideologia dominante e está consumida pelos interesses paroquiais e pessoais dos nossos representantes. Tanto a direita quanto a esquerda não têm nada a dizer a este indivíduo abandonado a si mesmo, quando não reforçam o discurso. As esquerdas perderam os seus sonhos de revolução social e vivem hoje a ressaca do que Enzo Traverso denominou de Melancolia de Esquerda: não tem discurso e ideologia para comunicar, porque se perderam em corrupções,  porque perderam a conexão com as classes baixa e média,  porque sua adesão à agenda identitária foi feita em detrimento da agenda da igualdade, ou simplesmente porque o neoliberalismo está em toda parte. As direitas tradicionais fizeram o acordo que parecia impensável há algumas décadas: neoconservadores uniram-se a neoliberais e todos pregam um Estado mínimo, em que o individualismo e o utilitarismo são os únicos modos de vida para o valor da liberdade absoluta. E, para piorar, surgem os diversos movimentos reacionários, que pregam um retorno à disciplina, a execração das diferenças, o desrespeito às minorias (tratadas como anomalias) e as supremacias de toda espécie (basta ver os discursos das extremas direitas do Brasil e Estados Unidos). Essa condição toda só faz crescer a desigualdade. E, se a desigualdade crescente é a regra e a liberdade é o valor absoluto, é essencial que o único responsável pelo sucesso seja o próprio indivíduo, independente das suas condições para participar do jogo.


 
 
 

2 comentários


Renata Mathias de Lima
Renata Mathias de Lima
22 de set. de 2025

Muito obrigada, Celson,pela reflexão. A etimologia da palavra Evangelho significa "boa nova", que vai ao encontro da ironia que você faz logo no título. Penso muito parecido. A modernidade fez um rompimento com o passado, até para que ela pudesse se afirmar. É como se o que existisse antes de mim não tivesse valor. Não podemos romper com o passado. Ele nos constitui. A ideia de "Sou minha marca" resultou no esfacelamento e no esgarçamento. Somos seres gregários: o outro, o passado, a História são cruciais.

Mas o marketing insiste em nos vender que podemos. Nunca mentimos tanto.

Você já leu um livro chamado "O discurso da servidão voluntária"? É um clássico, Celson. Você vai gostar, se ainda não leu.…

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celsonhupfer
23 de set. de 2025
Respondendo a

Obrigado por sua mensagem Renata. Muito bom. Eu estou trabalhando num texto em cima de um comentário que um amigo fez outro dia, de que as respostas para nossos problemas do futuro podem estar na ancestralidade. Eu não domino esse assunto, mas acho que é muito interessante.

Sobre La Boétie, sim eu já li o Discurso da servidão voluntária. A questão que ele se coloca é um problema para muitos pensadores e para o qual parece ser complicada uma resposta: porque os sujeitos humanos se dispõem ou não reagem à exploração, ao abuso etc. Lembro que Hegel aborda, de alguma maneira, isso, ao apresentar sua parábola do senhor e do escravo, em que sugere que um (o senhor) não te…

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