Para ler DostoiƩvski
- celsonhupfer
- 5 de jun. de 2024
- 19 min de leitura
Sou um apaixonado pela literatura de Dostoiévski. Compartilho a opinião do criador da PsicanÔlise, Sigmund Freud, de que Dostoiévski é o maior escritor de todos os tempos. Apesar de ser uma opinião pessoal, os leitores poderão conferir que qualquer seleção dos melhores romances da história da literatura conta invariavelmente com um ou mais de seus livros. Quem nunca ouviu falar ou leu Crime e Castigo, Os Irmãos KaramÔzov, Os DemÓnios, O Idiota, para citar apenas os mais famosos.
Meu propósito hoje Ć© contribuir para que os leitores iniciantes ou recĆ©m iniciados na literatura desse russo do sĆ©culo XIX caminhem por uma jornada menos complexa. Sim, porque DostoiĆ©vski nĆ£o Ć© um autor fĆ”cil. Seus personagens sĆ£o de extrema complexidade psicológica, seus enredos Ć s vezes beiram o caótico e ele tem muito pouco interesse nas questƵes do tempo e do espaƧo. NĆ£o espere descriƧƵes de cenĆ”rios, nem de contextos. Muitas vezes parece que tudo acontece ao mesmo tempo e agora. A preocupação dele Ć© discutir os dramas psicológicos de seus personagens, com todas as suas contradiƧƵes e radicalidades, e as dificuldades que estas personagens impƵem Ć s relaƧƵes e aos problemas de seu tempo. DaĆ brota uma profusĆ£o de personagens arquetĆpicas, onde beberam inĆŗmeros pensadores e correntes de pensamento depois dele, como Nietzsche, Freud, Camus, o Existencialismo, o Surrealismo, entre outros. AlĆ©m dos personagens, o pensamento de todo o sĆ©culo XX tambĆ©m se aproveitou de algumas das mais profundas questƵes trazidas Ć tona por DostoiĆ©vski, como as dos limites da maldade humana, do livre arbĆtrio, do ressentimento, dos radicalismos utilitĆ”rio e socialista etc. Por isso, ler DostoiĆ©vski Ć© um mergulho na alma humana e nas suas condiƧƵes de existĆŖncia num mundo que dĆ” os primeiros passos no seu caminho para a modernidade.Ā
A primeira vez que me propus a ler DostoiĆ©vski eu tinha uns 24 ou 25 anos. Eu havia concluĆdo o programa de Trainee do Banco Noroeste Chemical, que depois virou Norchem. Trabalhava como analista econĆ“mico e fazia estudos setoriais para a Ć”rea de crĆ©dito. Estimulado por uma colega tambĆ©m economista, comprei as Obras Completas do autor, uma edição em quatro volumes, da Editora Nova Aguilar, cuja primeira edição havia sido publicada em 1963. Os textos foram publicados em papel Biblia, aqueles de folhas bem fininhas e letras miĆŗdas. Lembro que aproveitava minhas idas e vindas no Ć“nibus elĆ©trico Margarida Maria, que me levava da Vila Mariana para o Centro de SĆ£o Paulo e vice-versa. Era sempre uma situação curiosa, porque eu usava terno e gravata, comuns aos bancĆ”rios da Ć©poca, e lia aqueles livros que pareciam efetivamente uma BĆblia. Frequentemente alguĆ©m me abordava e me perguntava se eu era pastor de alguma igreja evangĆ©lica. Dava sempre um certo trabalho dizer que eu estava lendo literatura e, principalmente, que gostaria de continuar no meu exercĆcio solitĆ”rio. Porque ler Ć© algo que se faz preponderantemente sozinho. Mas tambĆ©m era divertido, talvez porque me lembrasse de meu passado de sete anos como seminarista jesuĆta.
Comecei direto pelos seus livros da maturidade, Crime e Castigo, Os IrmĆ£os KaramĆ”zov, O Jogador, O Eterno Marido, O Idiota e assim por diante. Tinha muita dificuldade em compreender os textos, especialmente pela complexidade dos personagens. O que me fascinava era o quĆ£o profundo o autor mergulhava na alma humana. Sempre fui atraĆdo pelo sombrio, por aquilo que estava escondido e que se recusava em se mostrar. Eu queria visitar aquilo que estava por trĆ”s do que aparecia.
Mais recentemente, em plena pandemia do Corona Virus, recebi de um amigo uma entrevista em vĆdeo do youtuber FlĆ”vio Ricardo Vassoler, que me apresentou a obra magistral do biógrafo e crĆtico literĆ”rio de DostoiĆ©vski, Joseph Frank, em cinco volumes e algumas milhares de pĆ”ginas. Decidi que iria ler novamente a obra completa de DostoiĆ©vski, agora acompanhado das anĆ”lises de seu biógrafo e crĆtico. Logo percebi que deveria ler tambĆ©m outros autores russos contemporĆ¢neos de DostoiĆ©vski, como Gógol, TurguĆŖniev, Tolstói, TchernichĆ©vski, Herzen, alĆ©m de alguns comentadores. Foi uma experiĆŖncia maravilhosa, porque finalmente comecei a ter um acesso de fato mais profundo ao que DostoiĆ©vski queria nos transmitir. A jornada durou uns quatro anos ou mais. Gostaria de compartilhar o aprendizado dessa experiĆŖncia, porque acredito que pode ajudar quem deseja se enveredar pelo universo de DostoiĆ©vski. Ć claro que nĆ£o estou sugerindo ao leitor seguir a minha trajetória. Simplesmente acredito que, com o entendimento do que se passava com o autor e com o contexto sócio cultural de sua Ć©poca, fica mais fĆ”cil compreender o que ele queria deixar para a posteridade.
Dividirei o texto em quatro partes. Acho que dĆ” um pouco de estrutura para quem quiser acompanhar.
1)     Um pouco da biografia de Dostoiévski
2)     O contexto sócio cultural em que Dostoiévski escreveu
3)     Uma divisão cronológica da literatura de Dostoiévski
4)     Uma sugestão de roteiro para ler seus romances
1 ā Sobre o autor
DostoiĆ©vski nasceu em 1821, filho do que se denominava nobreza naquela Ć©poca na RĆŗssia, mas que se referia mesmo a pessoas livres. A grande maioria da população russa vivia sob o regime da servidĆ£o, em que as pessoas eram propriedade de algum nobre, propriedade essa que podia ser vendida isoladamente ou junto com a terra. A famĆlia, no entanto, nĆ£o possuĆa grandes posses. Seu pai, Mikhail AndriĆ©ievitch, era mĆ©dico no Hospital de Pobres da Escola MĆ©dica de Moscou, onde tambĆ©m moravam os DostoiĆ©vski. Considerado um homem austero, desconfiado, metódico, muito autoritĆ”rio, o pai tambĆ©m era afeito a excessos sentimentais, caracterĆstica bastante presente na cultura russa. A mĆ£e, Maria Fiodoróvna Dostoievskaia, fazia o contraponto do pai, com sua doƧura e sofrimento silencioso devido Ć condição financeira insuficiente. O futuro grande romancista foi batizado como Fiodor Mikhailovitch DostoiĆ©vski e sempre foi muito ligado ao seu irmĆ£o mais velho Mikhail.
Durante a infĆ¢ncia, a educação obedecia uma verdadeira disciplina militar, com aulas de latim ministradas pelo pai, alĆ©m da leitura em conjunto da BĆblia, da História da RĆŗssia e de diversos poetas russos, entre os quais PĆŗchkin. A relação de DostoiĆ©vski com seu pai resultou em vĆ”rias anĆ”lises posteriores, entre as quais destaca-se o texto de Freud, DostoiĆ©vski e o ParricĆdio.Ā Neste texto, o psicanalista austrĆaco sugere que a obra Os IrmĆ£os KaramĆ”zov, de DostoiĆ©vski, segue o mesmo roteiro do parricĆdio, tambĆ©m presente em outras duas das mais importantes obras da literatura universal, Ćdipo Rei, de Sófocles,Ā e Hamlet, de Shakespeare. Como nĆ£o parece haver um consenso sobre o acontecimento da morte do pai de DostoiĆ©vski (para muitos biógrafos ele teria sido assassinado pelos seus servos da pequena propriedade rural que havia adquirido), tambĆ©m nĆ£o existe convergĆŖncia entre os estudiosos acerca da interpretação de Freud. NinguĆ©m, no entanto, pƵe em dĆŗvida a importĆ¢ncia da relação de DostoiĆ©vski com seu pai na sua literatura.
Aos 12 anos, juntamente com seu irmĆ£o, foi morar na casa de um instrutor de francĆŖs, matemĆ”tica e estudos eslavos, onde tambĆ©m liam muito alguns dos autores que foram marcantes para sua personalidade: Walter Scott, Dickens, George Sand, Vitor Hugo e PĆŗchkin. Ć desta Ć©poca a sua idolatria por PĆŗchkin e que o acompanharĆ” atĆ© o fim da vida. Posteriormente foi enviado para estudar na Escola Militar em SĆ£o Petersburgo, onde algumas caracterĆsticas de sua personalidade comeƧaram a se manifestar: tinha enorme incapacidade de se adaptar ao meio estudantil, em função de excessivo amor-próprio, e sua desconfianƧa e timidez. Estas caracterĆsticas estarĆ£o presentes em algumas importantes obras suas, especialmente em Memórias do SubterrĆ¢neo. Seu isolamento o coloca em contato com as obras de outros grandes nomes da literatura da Ć©poca ou um pouco anterior, como Balzac, Goethe, Schiller, Racine e Corneille.
Nessa Ć©poca aparecem tambĆ©m os primeiros sinais de outra caracterĆstica que acompanharĆ” DostoiĆ©vski durante toda sua vida: a dificuldade em lidar com as finanƧas.
Depois da morte do pai, em 1844, pede demissĆ£o da Academia Militar e, diante de uma vida mais livre, que era completada pela frequĆŖncia a teatros, concertos e casas de jogos, DostoiĆ©vski inicia a redação de seu primeiro romance, Pobre Gente. A obra recebeu enorme aclamação pela crĆtica, especialmente do poderoso crĆtico literĆ”rio Bielinski. O sucesso subiu Ć cabeƧa e as próximas, obras, mesmo que hoje consideradas importantes para a formação dele como escritor, receberam crĆticas bastante negativas. Algumas foram atĆ© mesmo consideradas cópias de Gógol, outro escritor russo apenas alguns anos mais velho que DostoiĆ©vski. Rompeu com seus colegas intelectuais da Ć©poca, NekrĆ”ssov e TurguĆŖniev, afundou-se em dĆvidas e isolou-se cada vez mais. Acabou juntando-se a um grupo de niilistas revolucionĆ”rios e propagandistas de novas ideias.
Dostoievski ingressou no CĆrculo de PetrachĆ©vski, grupo de ideais progressistas, formado por universitĆ”rios, artistas e pequenos burgueses, que se reuniam para falar de literatura, polĆtica e criticar o regime do Czar Nicolau I. TambĆ©m fez parte do grupo de SpĆ©chniev, este mais radical e voltado para a ação polĆtica, mas acerca do qual restam poucas informaƧƵes.
Em função de sua participação no CĆrculo de PetrachĆ©vski, iniciou-se uma outra das grandes fases que marcaram a vida de DostoiĆ©vski. Junto com alguns colegas, ele foi denunciado em 1949 e foi levado preso para a Fortaleza de Pedro e Paulo, onde permaneceu por vĆ”rios meses. A prisĆ£o nĆ£o o impediu de escrever um pequeno romance, O Pequeno Herói, sobre o despertar sexual de um garoto de 11 anos. Os membros do grupo foram levados a julgamento e diversos deles, entre os quais DostoĆ©vski, foram condenados Ć morte em praƧa pĆŗblica. Diante do pelotĆ£o de fuzilamento, com os olhos jĆ” vendados e preparados para os tiros, alguĆ©m agitou o lenƧo, os clarins tocaram e ouviu-se a voz do General de plantĆ£o anunciando que o Czar, āem sua inefĆ”vel clemĆŖnciaā, lhes concedia a vida. A pena foi comutada para dez anos na SibĆ©ria, sendo 4 na prisĆ£o e o restante prestando serviƧos ao ExĆ©rcito. O episódio marcou a vida de DostoiĆ©vski e foi relatado algumas vezes em sua obra. Teria dividido seus Ćŗltimos minutos de vida em trĆŖs partes: dois minutos para se despedir dos amigos, dois para refletir sobre o que serĆ” a morte e outro para olhar o mundo pela Ćŗltima vez.
A experiĆŖncia na SibĆ©ria mudou o artista para sempre. Seus maiores romances foram escritos depois dos anos na prisĆ£o e serviƧos ao ExĆ©rcito. Ele mesmo reconheceu o efeito deste perĆodo sobre sua vida. Acreditava que, sendo um dos poucos nobres ali, teve a oportunidade de conhecer o verdadeiro povo russo, convivendo com homens comuns do povo, criminosos de todo tipo, assassinos, criminosos polĆticos, estrangeiros e pessoas de todos os lugares da RĆŗssia. As condiƧƵes da prisĆ£o eram pĆ©ssimas e reinava a violĆŖncia dos carcereiros, os trabalhos forƧados inĆŗteis e a total impossibilidade de fuga. Compreendeu ali o que ele chamava de interior do povo russo e reforƧou um de seus princĆpios mais fundamentais e que o acompanhou em toda a sua obra: o de que o livre arbĆtrio e a busca pela liberdade estĆ£o na constituição psĆquica de qualquer indivĆduo. Liberdade e livre arbĆtrio para ele significavam manter a capacidade de recusar a servidĆ£o, a prisĆ£o e a violĆŖncia dos carcereiros mais perversos, mesmo que apenas em pensamento. O Ćŗnico livro a que tinha acesso nos primeiros quatro anos era a BĆblia ortodoxa, que lhe permitiu tornar-se um profundo conhecedor do Cristo primitivo e da comunidade cristĆ£, outro aspecto que o acompanharĆ” para sempre na literatura. Ou seja, o perĆodo da prisĆ£o forjou o futuro escritor de alguns dos mais belos romances da história: o apego ao eslavismo, o combate ao progresso tĆ©cnico e Ć s ideias niilistas expostas no pensamento radical dos socialistas e dos ocidentalistas, o amor cristĆ£o como base para a vida social e o livre arbĆtrio como possibilidade de construção da vida na fĆ© ortodoxa.Ā
Quando, em 1854, deixou a prisão para tornar-se soldado de um batalhão da Sibéria, em pouco tempo casou-se com sua primeira esposa, Maria Dimitriévna. O marido alcoólatra havia falecido e a deixou com o filho PÔvel Issaev, adotado por Dostoiévski. O casamento mostrou-se uma grande frustração para ambos: Maria por descobrir, na noite de núpcias, a epilepsia do novo marido, e Dostoiévski em função do temperamento irritÔvel, mórbido e fatalista da esposa, associados à tuberculose que a levou à morte alguns anos depois jÔ em São Petersburgo.
Nos anos de SibĆ©ria nĆ£o houve produção artĆstica, apenas notas acerca dos companheiros de prisĆ£o e que resultaram no belo relato RecordaƧƵes da Casa dos Mortos.Ā Seu irmĆ£o, Mikhail, por sua vez havia criado uma pequena editora, que publicou alguns de seus romances anteriores.
Em 1859, o novo Czar, Alexandre II, autorizou o seu regresso para SĆ£o Petersburgo, o que, em função de seu passado revolucionĆ”rio, nĆ£o o evitarĆ” de ter que conviver pelo resto de sua vida com a censura prĆ©via a tudo que viria a escrever. Junto com seu irmĆ£o, editou a revista O Tempo, onde publicou Humilhados e Ofendidos, alĆ©m de contribuiƧƵes de TurguĆŖniev e StrĆ”kov. Essa obra o reconduziu Ć fama perdida, mesmo que nĆ£o tenha tido boa recepção da crĆtica. O texto sobre os relatos na prisĆ£o, RecordaƧƵes da Casa dos Mortos, no entanto, tornou DostoiĆ©vski novamente um autor aclamado pela crĆtica e pĆŗblico. Conta-se que o próprio Czar teria chorado ao ler a obra.
Logo após a morte de sua primeira esposa, casou-se com Anna Grigórievna, de apenas 18 anos, e que havia sido contratada como estenógrafa enquanto escrevia O Jogador. O novo casamento terĆ” grande influĆŖncia sobre sua vida, em função do temperamento atencioso e estruturado de Anna. Ela cuidarĆ” de suas finanƧas, que ele insistirĆ” em desorganizar em função do vĆcio no jogo e de sua extrema condescendĆŖncia com as demandas do enteado e da esposa de seu irmĆ£o Mikhail, falecido.
A partir de entĆ£o, Dostoievski passou cada vez mais a se tornar o grande escritor que estava destinado a ser. Com sua obra Memórias do SubterrĆ¢neo, Dostoievski deixou de ser um imitador de escolas anteriores (como a crĆtica continuava a se referir a ele) e tornou-se o escritor das profundidades do psiquismo humano, dos problemas metafĆsicos e da consciĆŖncia universal. Esta Ć© uma obra de um pessimismo azedo, anti-racionalista, extremamente depressiva e que retrata a trajetória de um sujeito que sofre o abandono das relaƧƵes sociais, tem ataques de epilepsia sugeridos e se torna um niilista, mas cuja hiperconsciĆŖncia nĆ£o o impede de perceber os desajustes que o radicalismo lhe impƵe.
Todas as principais caracterĆsticas da personalidade de DostoiĆ©vski estarĆ£o presentes nas suas obras do que se denominou de maturidade do autor: seu isolamento social, dificuldades de relacionamento, sentimento de exclusĆ£o permanente, a saĆŗde frĆ”gil, em especial os frequentes ataques de epilepsia e o enfisema pulmonar. Tudo isso associado Ć s dificuldades financeiras, que o obrigaram mesmo a fugir para Dresden por alguns anos e a mendigar por frequentes adiantamentos dos editores, e o vĆcio no jogo, que se manifestava somente quando estava no exterior. AlĆ©m disso era tomado por uma religiosidade extremada e por um eslavofilismo acentuado e pela luta contra os radicais niilistas socialistas e ocidentalistas.
Faleceu em 28 de janeiro de 1880, após um ataque de hemorragia pulmonar. Seu funeral foi um dos maiores eventos da RĆŗssia de seu tempo, com a presenƧa estimada de mais de 30 mil pessoas. Para seu biógrafo H. Troyat, ācomeƧarĆ” entĆ£o a verdadeira vida de DostoiĆ©vski, fora do tempo e do espaƧoā.
2 ā O Contexto Sócio Cultural
O sĆ©culo em que Dostoievski viveu foi a era de ouro da literatura russa. NĆ£o bastassem os dois grandes e mais conhecidos nomes, o próprio DostoiĆ©vski e Lev Tolstói, eles foram contemporĆ¢neos de outros grandes escritores, como TurguĆŖniev, Tchekov, PĆŗchkin, Gogol, TchernichĆ©vski, Herzen e inĆŗmeros outros menos conhecidos. O que movia todos eles era o caldo social que fervilhava por toda Europa e tambĆ©m na quase feudal e mais distante RĆŗssia. O mundo estava em luta contra a aristocracia e observava o florescimento da industrialização em todos os paĆses. Foram anos de grandes transformaƧƵes econĆ“micas e sociais.
No final do sĆ©culo XVIII, as monarquias europeias, capitaneadas pelo Sacro ImpĆ©rio Romano, comeƧaram a ser desafiadas pelas novas ideias revolucionĆ”rias. O ataque mais forte foi comandado por um ambicioso militar corso, NapoleĆ£o Bonaparte e suas guerras contra os impĆ©rios. Sua derrota, acontecida pela tentativa de subjugar a RĆŗssia, foi maravilhosamente narrada por Tolstói em seu Guerra e Paz. Com NapoleĆ£o vencido, refluĆram as monarquias, mas os ideais revolucionĆ”rios se mantiveram intactos entre as elites emergentes e classes trabalhadoras nas crescentes aglomeraƧƵes urbanas. Durante muito tempo, estiveram juntos na luta contra as monarquias os burgueses emergentes e os trabalhadores em toda a Europa. Ao mesmo tempo, cresciam as ideias materialistas, cujos primeiros sinais haviam sido lanƧados pelo iluminismo, especialmente na Alemanha, Inglaterra e FranƧa. A literatura nestes paĆses, por sua vez, deixava de ser folhetinesca para se integrar e frequentemente antecipar as demandas culturais.
A alianƧa entre as classes trabalhadoras e a burguesia se quebrou com as revoluƧƵes de 1848, que foi denominada Primavera dos Povos. Elas se espalharam por toda a Europa e tinham por objetivo derrubar definitivamente os regimes autocrĆ”ticos, enfrentar a misĆ©ria decorrente da Revolução Industrial que atraĆa cada vez mais pessoas para as cidades e a falta de representação polĆtica das classes mĆ©dias e dos nacionalistas. A revolução de 1848 na FranƧa Ć© apenas a mais visĆvel. Outras 50 naƧƵes tambĆ©m experimentaram movimentos locais, como a abolição da escravidĆ£o no ImpĆ©rio Austro-HĆŗngaro, o fim do absolutismo na Dinamarca, revoluƧƵes na Alemanha, PolĆ“nia, ItĆ”lia, GrĆ£-Bretanha, Espanha e Portugal. Na FranƧa, o movimento iniciou-se pelo que foi conhecido pelo nome de Comuna de Paris, o primeiro, e para muitos Ćŗnico, governo efetivamente popular da história. Ele levou inicialmente Ć fuga da burguesia da cidade de Paris e a subsequente derrubada do novo regime pelas forƧas militares burguesas e prussianas. Culminou com a eleição do primeiro presidente, LuĆs Bonaparte, sobrinho de NapoleĆ£o, que, finalmente, tornou-se imperador. Trabalhadores e ativistas das suas causas foram perseguidos, sendo milhares deles assassinados e fuzilados, alĆ©m de mais de 30 mil exilados para as colĆ“nias francesas. Os acontecimentos desta Ć©poca, com a definitiva separação entre burguesia e classes trabalhadoras, motivaram a famosa afirmação de Marx, em seu Dezoito BrumĆ”rio:Ā āHegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importĆ¢ncia na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragĆ©dia, a segunda como farsaā.
DostoiĆ©vski participou, na RĆŗssia, da primeira onda destes movimentos. Influenciados pelo socialismo utópico e cristĆ£o dos franceses Fourrier e Saint-Simon, o CĆrculo de PetratchĆ©vski se reunia para discutir polĆtica, literatura e o fim da servidĆ£o. Nunca partiu para a ação, no entanto. A servidĆ£o somente chegou ao fim com a ascensĆ£o do Czar Alexandre, em 1861, implantando um modelo de propriedade e exploração compartilhada da terra.
Os eventos de 1848 na Europa tiveram profundos impactos no pensamento de DostoiĆ©vski. Ele acusava o materialismo e seus consequentes niilismo, individualismo, socialismo racionalista e industrialismo, como o mal de siĆ©cle, nĆ£o apenas no Ocidente, como tambĆ©m na sua santa mĆ£e RĆŗssia. Utilizou grande parte de sua literatura para atacar os movimentos radicais, tanto o nascente socialismo materialista e utópico, que agora partia para a ação, quanto o industrialismo burguĆŖs, que apontava para um mundo dominado pela ciĆŖncia e tecnologia. Na sua compreensĆ£o, ambos afastavam as pessoas dos valores cristĆ£os ortodoxos da vida em comunidade e do livre arbĆtrio. Praticamente todas as suas grandes obras representam a sua luta contra o racionalismo, o niilismo e o ocidentalismo que floresciam entre a juventude e a intelectualidade russas. De outro lado, escrevia e agia em defesa de um certo tipo de eslavismo fundado na ortodoxia da Igreja Ortodoxa, que acreditava possuir um poder regenerador da sociedade mundial, do modelo de organização camponesa baseada na comunidade, com o amor ao Czar-pai Ć frente e do livre arbĆtrio como valor essencial do sujeito, conforme pregado pelo Cristo dos Evangelhos.
3 ā Fases da Literatura de DostoiĆ©vski
A obra literĆ”ria de DostoiĆ©vski Ć© geralmente dividida pelos crĆticos em trĆŖs fases: Novelas da Juventude, Obras de Transição e Romances da Maturidade. NĆ£o pretendo me alongar nesta anĆ”lise. Apenas listar estas obras conforme a maioria dos seus estudiosos as classificam.
Novelas da Juventude
Seu primeiro livro, Pobre Gente, foi escrito em 1846, quando tinha apenas 25 anos e teria tido por inspiração o romance O Capote, de Gógol. Como jĆ” informei acima, o livro foi muito bem recebido pela crĆtica literĆ”ria da Ć©poca, especialmente pelo todo poderoso Vissarión Grigórievitch Belinski. As suas obras desta fase, consideradas romĆ¢nticas, revelam claras influĆŖncias da literatura francesa da Ć©poca, mas sobretudo de seu grande mestre Aleksandr Sergueievich PĆŗchkin e de seu contemporĆ¢neo Nikolai Vasilievich Gógol. Sua identificação com estes foi tĆ£o grande que algumas de suas obras foram acusadas de serem meras cópias ou plĆ”gios destes autores. SĆ£o caracterizadas por uma espĆ©cie de romantismo ingĆŖnuo, forte defesa dos valores romĆ¢nticos do povo camponĆŖs, e alguns sinais de combate Ć servidĆ£o. SĆ£o todas obras menos volumosas. Alguns de seus crĆticos afirmam que estas obras jĆ” continham as principais ideias que marcaram os grandes romances da maturidade. SĆ£o as seguintes as novelas desta fase:
1846 ā Pobre Gente, O Duplo, Senhor ProkhĆ”rtchin
1847 ā Um Romance em Nove Cartas, A Dona da Casa
1848 ā Noites Brancas, Polzunkov, Coração FrĆ”gil, O LadrĆ£o Honrado, A Mulher Alheia, A Ćrvore de Natal, NiĆ©tochka NiezvĆ¢nova, O Pequeno Herói
1859 - O Sonho do Tio, A Granja de Stiepântchikovo
Obras de Transição
DostoiĆ©vski passou 10 anos sem poder escrever, os quatro anos em que esteve preso na SibĆ©ria e os restantes servindo como soldado num batalhĆ£o do exĆ©rcito, tambĆ©m na SibĆ©ria. Sua experiĆŖncia de quase morte, alĆ©m do que ele afirmava ter sido sua convivĆŖncia com os homens simples do povo russo, tiveram enorme influĆŖncia na sua literatura a partir de entĆ£o. Ela se torna mais densa, com forte cunho autobiogrĆ”fico e profundidade das caracterĆsticas psicológicas dos personagens. De forma irĆ“nica, e Ć s vezes cĆ“mica, passa a enfrentar o que considerava serem os principais problemas sócio culturais da RĆŗssia de entĆ£o. Nelas, os problemas elaborados romanticamente na fase anterior, estĆ£o presentes, mas ainda nĆ£o com a forƧa e profundidade de suas obras da maturidade. Mas esta fase jĆ” estĆ” repleta de textos da mais alta importĆ¢ncia, como a sua experiĆŖncia dos anos de confinamento (Memória da Casa dos Mortos), a crĆtica ao ideal tecnicista do Ocidente (Notas de Inverno... e O Crocodilo) e o ataque ao niilismo (Memórias do SubterrĆ¢neo). Toda a sua literatura, a partir de entĆ£o, passou a necessitar de censura prĆ©via, em razĆ£o de seu passado revolucionĆ”rio. Apesar de O Sonho do Tio e A Aldeia de StiepĆ¢ntchikovoĀ serem frequentemente incluĆdas nesta fase em função da data de publicação, alguns crĆticos preferem associar elas ainda ao romantismo caracterĆstico da primeira fase. Optei por seguir a estrutura proposta por estes Ćŗltimos.
1861 ā Humilhados e Ofendidos
1862 ā Memórias da Casa dos Mortos, Uma História Aborrecida
1863 ā Notas de Inverno sobre ImpressƵes de VerĆ£o
1864 ā Memórias do SubterrĆ¢neo
1865 ā O Crocodilo
Romances da Maturidade
Esta fase se encerra com a morte de DostoiĆ©vski, no inĆcio de 1881, logo após concluir Os IrmĆ£os KaramĆ”zov. O autor atinge o topo de sua carreira literĆ”ria e finca seu nome definitivamente entre os mais importantes escritores de todos os tempos. Junto com Memórias do SubterrĆ¢neo, da fase anterior, as obras desta fase formam as bases da filosofia existencialista e serviram de inspiração para inĆŗmeros pensadores que se seguiram, com destaque para Nietzsche e Freud. SĆ£o caracterizadas pela profundidade da psicologia dos seus personagens e pela anĆ”lise apurada dos principais conflitos sociais de sua Ć©poca. Os limites da maldade humana e de suas razƵes, fundadas na racionalidade e niilismo, talvez nĆ£o tenham recebido exposição melhor em toda a literatura universal. TambĆ©m houve espaƧo, entretanto, para caracterizaƧƵes da idealização do bem em romances como O IdiotaĀ e seu personagem central, o PrĆncipe MĆchkin, e em personagens femininas, como a coxa e meio dĆ©bil mental Maria, de Os DemĆ“nios, e a prostituta SĆ“nia, de Crime e Castigo, entre outras.
Esta Ć©poca tambĆ©m foi dedicada por DostoiĆ©vski ao planejamento do que ele considerava sua obra maior, A História de um Grande Pecador,Ā que nunca foi concluĆda. Seus textos Crime e Castigo, Os DemĆ“nios e Os IrmĆ£os KaramĆ”zov, Ć s vezes sĆ£o incluĆdos como parte deste plano. Neste perĆodo, o autor tambĆ©m escreveu alguns textos menores, como a do Mujique Marrei, para muitos uma espĆ©cie de memórias em torno da morte de seu próprio pai, e O Sonho de um Homem RidĆculo, este considerada a Ćŗnica obra de DostoiĆ©vski em que a maldade humana consegue alcanƧar algum tipo de redenção, atravĆ©s do amor fraternal.
1866 ā Crime e Castigo
1867 ā O Jogador
1869 ā O Idiota
1870 ā O Eterno Marido
1872 ā Os DemĆ“nios
1875 ā O Adolescente
1877 ā O Sonho de um Homem RidĆculo
1881 ā Os IrmĆ£os KaramĆ”zov
4 ā SugestĆ£o para um Roteiro de Leitura
à claro que a gente sempre pode escolher, de forma aleatória, um ou outro romance de um escritor que produziu uma vasta obra, como é o caso de Dostoiévski. E é assim que a maioria das pessoas faz, o que jÔ é muito bom, em se tratando de literatura clÔssica. Na minha opinião, no entanto, Dostoiévski é um daqueles autores que merecem uma mergulhada mais ampla em sua produção. Alguns de seus textos podem e, muitas vezes, devem ser lidos mais de uma vez. A cada nova leitura, novas descobertas são feitas, novos olhares são descortinados, novos personagens são melhor compreendidos. A literatura clÔssica é repleta de exemplos de autores que merecem ser estudados e lidos de forma abrangente e aprofundada: Shakespeare, Tolstói, Flaubert, Proust, Kafka, Camus e os brasileiros Machado de Assis e Graciliano Ramos, entre outros.
Como salientei logo na introdução, DostoiĆ©vski nĆ£o Ć© fĆ”cil ou simples. Seu texto Ć© complexo e, para dizer o mĆnimo, exige atenção e determinação. Alguns de seus grandes romances requerem semanas de leitura, mesmo daquelas pessoas jĆ” mais acostumadas ao autor. AlĆ©m disso, pode ser bastante complicado compreender as psicologias dos personagens, seus conflitos pessoais e com a sociedade, sem ter um mĆnimo de entendimento do contexto sócio cultural da Ć©poca em que foram escritos, os valores e crenƧas do autor e suas próprias dificuldades de vida. Estes sĆ£o conselhos valiosos para compreender qualquer grande escritor. Por conta disso, procurei dispor este artigo de uma forma que facilite a compreensĆ£o da literatura de DostoiĆ©vski aos iniciantes e mesmo a alguns dos jĆ” um pouco mais iniciados, como foi o meu próprio caso na segunda leitura de sua obra. AlĆ©m disso, para que o leitor nĆ£o se desespere diante da complexidade de alguns textos, como Os DemĆ“nios, ou da aparente pieguice romĆ¢ntica de outros, como Noites Brancas ou NiĆ©tochka NiezvĆ¢nova, preparei um roteiro de leitura na intenção de ajudar Ć queles que desejam se dedicar a ampliar o conhecimento de sua obra. O roteiro segue a ideia de que os leitores irĆ£o buscar uma melhor compreensĆ£o dos grandes romances de DostoiĆ©vski, pelo menos os mais conhecidos, como Os IrmĆ£os KaramĆ”zov e Crime e Castigo.
Minha sugestão de roteiro começa por Memórias da Casa dos Mortos, uma espécie de resumo das anotações e impressões que Dostoiévski teve de seus companheiros de prisão na Sibéria. O próprio autor revela que aqueles anos lhe permitiram a compreensão da alma do povo pobre russo, sua religiosidade, seu amor à santa mãe Rússia e seu apego à liberdade, mesmo que seja somente em pensamento, dadas as condições materiais da prisão.
Em seguida, sugiro a leitura de Notas de Inverno sobre ImpressƵes de VerĆ£o e de Memórias do SubterrĆ¢neo. Estas duas obras revelam os dois principais adversĆ”rios contra os quais DostoiĆ©vski irĆ” lutar nas suas obras posteriores: a racionalidade tecnicista importada do Ocidente, no primeiro, e os efeitos psicológicos do niilismo sobre a personalidade e sobre a sociedade, no segundo. Especialmente Memórias do SubterrĆ¢neo, que estĆ” na base do Homem do Ressentimento, de Nietzche, e teria contribuĆdo para a construção da ideia de inconsciente por Freud. Em DostoiĆ©vski, este texto discute os efeitos, para o indivĆduo e para a sociedade, dos conflitos entre a pregação ingĆŖnua e totalitĆ”ria de uma racionalidade humana fornecida de fora para dentro, sugerida por TchernichĆ©vski, em seu O que Fazer? Ā e os valores intrĆnsecos e ironicamente irracionais do livre arbĆtrio cristĆ£o.
A partir daqui, o leitor estarĆ” pronto para se aventurar nos grandes romances de DostoiĆ©vski, como OsĀ IrmĆ£o KaramĆ”zov, Crime e Castigo e Os DemĆ“nios. NĆ£o vou me estender sobre estes textos, porque cada um deles nos exigiria inĆŗmeras pĆ”ginas de anĆ”lise. Prometo voltar a eles em algum momento futuro. Se o leitor desejar, pode entremear estas leituras com alguns textos mais fĆ”ceis de assimilar, como Pobre Gente e seu romantismo relativamente ingĆŖnuo e algumas novelas jĆ” da maturidade, como O Eterno Marido e O Jogador.Ā O Ćŗltimo deles, em especial, tem um apelo autobiogrĆ”fico bem interessante, na medida em que DostoiĆ©vski, alĆ©m das dificuldades financeiras e da epilepsia, era tambĆ©m um viciado no jogo, que nĆ£o observava limites (em uma ocasiĆ£o, em Dresden, chegou mesmo a empenhar o casaco de sua esposa). O interessante de sua personalidade Ć© que o vĆcio só se revelava quando estava fora da RĆŗssia.
O Idiota, no entanto, Ć© uma leitura Ć parte. Todo escrito no exterior, tendo sido iniciado em Genebra e concluĆdo em FlorenƧa, em 1869, o romance foi aparecendo parceladamente na revista O Mensageiro Russo. NĆ£o obedece uma narrativa ordenada e lógica, perdendo-se muitas vezes em episódios Ć margem, talvez em função da forma como foi sendo escrito e publicado, em viagem constante. O seu personagem central, o PrĆncipe MĆchkin Ć©, sem dĆŗvida, uma das figuras mais estranhas, mais ambĆguas, mais inexplicĆ”veis e mĆsticas de todas as suas criaƧƵes. Ele possui muito de suas próprias caracterĆsticas, como a epilepsia, o episódio da sua condenação Ć morte por fuzilamento e salvação no Ćŗltimo instante e as suas emoƧƵes artĆsticas com a obra de Holbein, a Descida da Cruz. Ć um personagem definitivamente indecifrĆ”vel: um epilĆ©ptico? Um retardado mental? Um idiota? Ao mesmo tempo era uma criatura excepcional, procurada por todos quando necessitavam de decisƵes difĆceis, mesmo que tambĆ©m zombassem dele. Sua bondade inumana, capacidade de sofrer o sofrimento alheio e amor pelos mais fracos e humildes, em especial as crianƧas, fizeram com que, para muitos crĆticos, fosse comparado ao próprio Cristo. NĆ£o Ć© o Cristo, mas a sua existĆŖncia humana remete a outra existĆŖncia que nĆ£o Ć© humana, a do Homem-Deus. Seu valor literĆ”rio vai tambĆ©m na direção de revelar toda a religiosidade de DostoiĆ©vski e sua visĆ£o do cristianismo.
Finalmente, mas nĆ£o menos importante, recomendo a leitura de O Sonho de Um Homem RidĆculo. Trata-se de um texto bastante mais reduzido do que os demais e sua importĆ¢ncia decorre do fato de ser o Ćŗnico momento em toda a literatura da DostoiĆ©vski em que a maldade humana tem a oportunidade de alcanƧar algum tipo de redenção. Esta Ć© alcanƧada atravĆ©s de uma espĆ©cie de amor comunitĆ”rio, um amor desprovido de interesses e genuinamente cristĆ£o. Ao final nĆ£o se tem certeza se esta redenção acontece realmente ou se somente se realiza no sonho de morte do personagem.
Desejo a todos uma ótima leitura deste que é, sem a menor dúvida, um dos maiores escritores de todos os tempos. Para mim, como jÔ afirmei, inigualÔvel!
