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Para ler DostoiƩvski

  • celsonhupfer
  • 5 de jun. de 2024
  • 19 min de leitura

Sou um apaixonado pela literatura de Dostoiévski. Compartilho a opinião do criador da PsicanÔlise, Sigmund Freud, de que Dostoiévski é o maior escritor de todos os tempos. Apesar de ser uma opinião pessoal, os leitores poderão conferir que qualquer seleção dos melhores romances da história da literatura conta invariavelmente com um ou mais de seus livros. Quem nunca ouviu falar ou leu Crime e Castigo, Os Irmãos KaramÔzov, Os DemÓnios, O Idiota, para citar apenas os mais famosos.

Meu propósito hoje é contribuir para que os leitores iniciantes ou recém iniciados na literatura desse russo do século XIX caminhem por uma jornada menos complexa. Sim, porque Dostoiévski não é um autor fÔcil. Seus personagens são de extrema complexidade psicológica, seus enredos às vezes beiram o caótico e ele tem muito pouco interesse nas questões do tempo e do espaço. Não espere descrições de cenÔrios, nem de contextos. Muitas vezes parece que tudo acontece ao mesmo tempo e agora. A preocupação dele é discutir os dramas psicológicos de seus personagens, com todas as suas contradições e radicalidades, e as dificuldades que estas personagens impõem às relações e aos problemas de seu tempo. Daí brota uma profusão de personagens arquetípicas, onde beberam inúmeros pensadores e correntes de pensamento depois dele, como Nietzsche, Freud, Camus, o Existencialismo, o Surrealismo, entre outros. Além dos personagens, o pensamento de todo o século XX também se aproveitou de algumas das mais profundas questões trazidas à tona por Dostoiévski, como as dos limites da maldade humana, do livre arbítrio, do ressentimento, dos radicalismos utilitÔrio e socialista etc. Por isso, ler Dostoiévski é um mergulho na alma humana e nas suas condições de existência num mundo que dÔ os primeiros passos no seu caminho para a modernidade. 

A primeira vez que me propus a ler Dostoiévski eu tinha uns 24 ou 25 anos. Eu havia concluído o programa de Trainee do Banco Noroeste Chemical, que depois virou Norchem. Trabalhava como analista econÓmico e fazia estudos setoriais para a Ôrea de crédito. Estimulado por uma colega também economista, comprei as Obras Completas do autor, uma edição em quatro volumes, da Editora Nova Aguilar, cuja primeira edição havia sido publicada em 1963. Os textos foram publicados em papel Biblia, aqueles de folhas bem fininhas e letras miúdas. Lembro que aproveitava minhas idas e vindas no Ónibus elétrico Margarida Maria, que me levava da Vila Mariana para o Centro de São Paulo e vice-versa. Era sempre uma situação curiosa, porque eu usava terno e gravata, comuns aos bancÔrios da época, e lia aqueles livros que pareciam efetivamente uma Bíblia. Frequentemente alguém me abordava e me perguntava se eu era pastor de alguma igreja evangélica. Dava sempre um certo trabalho dizer que eu estava lendo literatura e, principalmente, que gostaria de continuar no meu exercício solitÔrio. Porque ler é algo que se faz preponderantemente sozinho. Mas também era divertido, talvez porque me lembrasse de meu passado de sete anos como seminarista jesuíta.

Comecei direto pelos seus livros da maturidade, Crime e Castigo, Os Irmãos KaramÔzov, O Jogador, O Eterno Marido, O Idiota e assim por diante. Tinha muita dificuldade em compreender os textos, especialmente pela complexidade dos personagens. O que me fascinava era o quão profundo o autor mergulhava na alma humana. Sempre fui atraído pelo sombrio, por aquilo que estava escondido e que se recusava em se mostrar. Eu queria visitar aquilo que estava por trÔs do que aparecia.

Mais recentemente, em plena pandemia do Corona Virus, recebi de um amigo uma entrevista em vĆ­deo do youtuber FlĆ”vio Ricardo Vassoler, que me apresentou a obra magistral do biógrafo e crĆ­tico literĆ”rio de DostoiĆ©vski, Joseph Frank, em cinco volumes e algumas milhares de pĆ”ginas. Decidi que iria ler novamente a obra completa de DostoiĆ©vski, agora acompanhado das anĆ”lises de seu biógrafo e crĆ­tico. Logo percebi que deveria ler tambĆ©m outros autores russos contemporĆ¢neos de DostoiĆ©vski, como Gógol, TurguĆŖniev, Tolstói, TchernichĆ©vski, Herzen, alĆ©m de alguns comentadores. Foi uma experiĆŖncia maravilhosa, porque finalmente comecei a ter um acesso de fato mais profundo ao que DostoiĆ©vski queria nos transmitir. A jornada durou uns quatro anos ou mais. Gostaria de compartilhar o aprendizado dessa experiĆŖncia, porque acredito que pode ajudar quem deseja se enveredar pelo universo de DostoiĆ©vski. Ɖ claro que nĆ£o estou sugerindo ao leitor seguir a minha trajetória. Simplesmente acredito que, com o entendimento do que se passava com o autor e com o contexto sócio cultural de sua Ć©poca, fica mais fĆ”cil compreender o que ele queria deixar para a posteridade.

Dividirei o texto em quatro partes. Acho que dĆ” um pouco de estrutura para quem quiser acompanhar.

1)      Um pouco da biografia de Dostoiévski

2)      O contexto sócio cultural em que Dostoiévski escreveu

3)      Uma divisão cronológica da literatura de Dostoiévski

4)      Uma sugestão de roteiro para ler seus romances

1 – Sobre o autor

Dostoiévski nasceu em 1821, filho do que se denominava nobreza naquela época na Rússia, mas que se referia mesmo a pessoas livres. A grande maioria da população russa vivia sob o regime da servidão, em que as pessoas eram propriedade de algum nobre, propriedade essa que podia ser vendida isoladamente ou junto com a terra. A família, no entanto, não possuía grandes posses. Seu pai, Mikhail Andriéievitch, era médico no Hospital de Pobres da Escola Médica de Moscou, onde também moravam os Dostoiévski. Considerado um homem austero, desconfiado, metódico, muito autoritÔrio, o pai também era afeito a excessos sentimentais, característica bastante presente na cultura russa. A mãe, Maria Fiodoróvna Dostoievskaia, fazia o contraponto do pai, com sua doçura e sofrimento silencioso devido à condição financeira insuficiente. O futuro grande romancista foi batizado como Fiodor Mikhailovitch Dostoiévski e sempre foi muito ligado ao seu irmão mais velho Mikhail.

Durante a infĆ¢ncia, a educação obedecia uma verdadeira disciplina militar, com aulas de latim ministradas pelo pai, alĆ©m da leitura em conjunto da BĆ­blia, da História da RĆŗssia e de diversos poetas russos, entre os quais PĆŗchkin. A relação de DostoiĆ©vski com seu pai resultou em vĆ”rias anĆ”lises posteriores, entre as quais destaca-se o texto de Freud, DostoiĆ©vski e o ParricĆ­dio.Ā Neste texto, o psicanalista austrĆ­aco sugere que a obra Os IrmĆ£os KaramĆ”zov, de DostoiĆ©vski, segue o mesmo roteiro do parricĆ­dio, tambĆ©m presente em outras duas das mais importantes obras da literatura universal, Ɖdipo Rei, de Sófocles,Ā e Hamlet, de Shakespeare. Como nĆ£o parece haver um consenso sobre o acontecimento da morte do pai de DostoiĆ©vski (para muitos biógrafos ele teria sido assassinado pelos seus servos da pequena propriedade rural que havia adquirido), tambĆ©m nĆ£o existe convergĆŖncia entre os estudiosos acerca da interpretação de Freud. NinguĆ©m, no entanto, pƵe em dĆŗvida a importĆ¢ncia da relação de DostoiĆ©vski com seu pai na sua literatura.

Aos 12 anos, juntamente com seu irmĆ£o, foi morar na casa de um instrutor de francĆŖs, matemĆ”tica e estudos eslavos, onde tambĆ©m liam muito alguns dos autores que foram marcantes para sua personalidade: Walter Scott, Dickens, George Sand, Vitor Hugo e PĆŗchkin. Ɖ desta Ć©poca a sua idolatria por PĆŗchkin e que o acompanharĆ” atĆ© o fim da vida. Posteriormente foi enviado para estudar na Escola Militar em SĆ£o Petersburgo, onde algumas caracterĆ­sticas de sua personalidade comeƧaram a se manifestar: tinha enorme incapacidade de se adaptar ao meio estudantil, em função de excessivo amor-próprio, e sua desconfianƧa e timidez. Estas caracterĆ­sticas estarĆ£o presentes em algumas importantes obras suas, especialmente em Memórias do SubterrĆ¢neo. Seu isolamento o coloca em contato com as obras de outros grandes nomes da literatura da Ć©poca ou um pouco anterior, como Balzac, Goethe, Schiller, Racine e Corneille.

Nessa Ʃpoca aparecem tambƩm os primeiros sinais de outra caracterƭstica que acompanharƔ DostoiƩvski durante toda sua vida: a dificuldade em lidar com as finanƧas.

Depois da morte do pai, em 1844, pede demissão da Academia Militar e, diante de uma vida mais livre, que era completada pela frequência a teatros, concertos e casas de jogos, Dostoiévski inicia a redação de seu primeiro romance, Pobre Gente. A obra recebeu enorme aclamação pela crítica, especialmente do poderoso crítico literÔrio Bielinski. O sucesso subiu à cabeça e as próximas, obras, mesmo que hoje consideradas importantes para a formação dele como escritor, receberam críticas bastante negativas. Algumas foram até mesmo consideradas cópias de Gógol, outro escritor russo apenas alguns anos mais velho que Dostoiévski. Rompeu com seus colegas intelectuais da época, NekrÔssov e Turguêniev, afundou-se em dívidas e isolou-se cada vez mais. Acabou juntando-se a um grupo de niilistas revolucionÔrios e propagandistas de novas ideias.

Dostoievski ingressou no Círculo de Petrachévski, grupo de ideais progressistas, formado por universitÔrios, artistas e pequenos burgueses, que se reuniam para falar de literatura, política e criticar o regime do Czar Nicolau I. Também fez parte do grupo de Spéchniev, este mais radical e voltado para a ação política, mas acerca do qual restam poucas informações.

Em função de sua participação no CĆ­rculo de PetrachĆ©vski, iniciou-se uma outra das grandes fases que marcaram a vida de DostoiĆ©vski. Junto com alguns colegas, ele foi denunciado em 1949 e foi levado preso para a Fortaleza de Pedro e Paulo, onde permaneceu por vĆ”rios meses. A prisĆ£o nĆ£o o impediu de escrever um pequeno romance, O Pequeno Herói, sobre o despertar sexual de um garoto de 11 anos. Os membros do grupo foram levados a julgamento e diversos deles, entre os quais DostoĆ©vski, foram condenados Ć  morte em praƧa pĆŗblica. Diante do pelotĆ£o de fuzilamento, com os olhos jĆ” vendados e preparados para os tiros, alguĆ©m agitou o lenƧo, os clarins tocaram e ouviu-se a voz do General de plantĆ£o anunciando que o Czar, ā€œem sua inefĆ”vel clemĆŖnciaā€, lhes concedia a vida. A pena foi comutada para dez anos na SibĆ©ria, sendo 4 na prisĆ£o e o restante prestando serviƧos ao ExĆ©rcito. O episódio marcou a vida de DostoiĆ©vski e foi relatado algumas vezes em sua obra. Teria dividido seus Ćŗltimos minutos de vida em trĆŖs partes: dois minutos para se despedir dos amigos, dois para refletir sobre o que serĆ” a morte e outro para olhar o mundo pela Ćŗltima vez.

A experiência na Sibéria mudou o artista para sempre. Seus maiores romances foram escritos depois dos anos na prisão e serviços ao Exército. Ele mesmo reconheceu o efeito deste período sobre sua vida. Acreditava que, sendo um dos poucos nobres ali, teve a oportunidade de conhecer o verdadeiro povo russo, convivendo com homens comuns do povo, criminosos de todo tipo, assassinos, criminosos políticos, estrangeiros e pessoas de todos os lugares da Rússia. As condições da prisão eram péssimas e reinava a violência dos carcereiros, os trabalhos forçados inúteis e a total impossibilidade de fuga. Compreendeu ali o que ele chamava de interior do povo russo e reforçou um de seus princípios mais fundamentais e que o acompanhou em toda a sua obra: o de que o livre arbítrio e a busca pela liberdade estão na constituição psíquica de qualquer indivíduo. Liberdade e livre arbítrio para ele significavam manter a capacidade de recusar a servidão, a prisão e a violência dos carcereiros mais perversos, mesmo que apenas em pensamento. O único livro a que tinha acesso nos primeiros quatro anos era a Bíblia ortodoxa, que lhe permitiu tornar-se um profundo conhecedor do Cristo primitivo e da comunidade cristã, outro aspecto que o acompanharÔ para sempre na literatura. Ou seja, o período da prisão forjou o futuro escritor de alguns dos mais belos romances da história: o apego ao eslavismo, o combate ao progresso técnico e às ideias niilistas expostas no pensamento radical dos socialistas e dos ocidentalistas, o amor cristão como base para a vida social e o livre arbítrio como possibilidade de construção da vida na fé ortodoxa. 

Quando, em 1854, deixou a prisão para tornar-se soldado de um batalhão da Sibéria, em pouco tempo casou-se com sua primeira esposa, Maria Dimitriévna. O marido alcoólatra havia falecido e a deixou com o filho PÔvel Issaev, adotado por Dostoiévski. O casamento mostrou-se uma grande frustração para ambos: Maria por descobrir, na noite de núpcias, a epilepsia do novo marido, e Dostoiévski em função do temperamento irritÔvel, mórbido e fatalista da esposa, associados à tuberculose que a levou à morte alguns anos depois jÔ em São Petersburgo.

Nos anos de Sibéria não houve produção artística, apenas notas acerca dos companheiros de prisão e que resultaram no belo relato Recordações da Casa dos Mortos. Seu irmão, Mikhail, por sua vez havia criado uma pequena editora, que publicou alguns de seus romances anteriores.

Em 1859, o novo Czar, Alexandre II, autorizou o seu regresso para São Petersburgo, o que, em função de seu passado revolucionÔrio, não o evitarÔ de ter que conviver pelo resto de sua vida com a censura prévia a tudo que viria a escrever. Junto com seu irmão, editou a revista O Tempo, onde publicou Humilhados e Ofendidos, além de contribuições de Turguêniev e StrÔkov. Essa obra o reconduziu à fama perdida, mesmo que não tenha tido boa recepção da crítica. O texto sobre os relatos na prisão, Recordações da Casa dos Mortos, no entanto, tornou Dostoiévski novamente um autor aclamado pela crítica e público. Conta-se que o próprio Czar teria chorado ao ler a obra.

Logo após a morte de sua primeira esposa, casou-se com Anna Grigórievna, de apenas 18 anos, e que havia sido contratada como estenógrafa enquanto escrevia O Jogador. O novo casamento terÔ grande influência sobre sua vida, em função do temperamento atencioso e estruturado de Anna. Ela cuidarÔ de suas finanças, que ele insistirÔ em desorganizar em função do vício no jogo e de sua extrema condescendência com as demandas do enteado e da esposa de seu irmão Mikhail, falecido.

A partir de então, Dostoievski passou cada vez mais a se tornar o grande escritor que estava destinado a ser. Com sua obra Memórias do Subterrâneo, Dostoievski deixou de ser um imitador de escolas anteriores (como a crítica continuava a se referir a ele) e tornou-se o escritor das profundidades do psiquismo humano, dos problemas metafísicos e da consciência universal. Esta é uma obra de um pessimismo azedo, anti-racionalista, extremamente depressiva e que retrata a trajetória de um sujeito que sofre o abandono das relações sociais, tem ataques de epilepsia sugeridos e se torna um niilista, mas cuja hiperconsciência não o impede de perceber os desajustes que o radicalismo lhe impõe.

Todas as principais características da personalidade de Dostoiévski estarão presentes nas suas obras do que se denominou de maturidade do autor: seu isolamento social, dificuldades de relacionamento, sentimento de exclusão permanente, a saúde frÔgil, em especial os frequentes ataques de epilepsia e o enfisema pulmonar. Tudo isso associado às dificuldades financeiras, que o obrigaram mesmo a fugir para Dresden por alguns anos e a mendigar por frequentes adiantamentos dos editores, e o vício no jogo, que se manifestava somente quando estava no exterior. Além disso era tomado por uma religiosidade extremada e por um eslavofilismo acentuado e pela luta contra os radicais niilistas socialistas e ocidentalistas.

Faleceu em 28 de janeiro de 1880, após um ataque de hemorragia pulmonar. Seu funeral foi um dos maiores eventos da RĆŗssia de seu tempo, com a presenƧa estimada de mais de 30 mil pessoas. Para seu biógrafo H. Troyat, ā€œcomeƧarĆ” entĆ£o a verdadeira vida de DostoiĆ©vski, fora do tempo e do espaƧoā€.

2 – O Contexto Sócio Cultural

O século em que Dostoievski viveu foi a era de ouro da literatura russa. Não bastassem os dois grandes e mais conhecidos nomes, o próprio Dostoiévski e Lev Tolstói, eles foram contemporâneos de outros grandes escritores, como Turguêniev, Tchekov, Púchkin, Gogol, Tchernichévski, Herzen e inúmeros outros menos conhecidos. O que movia todos eles era o caldo social que fervilhava por toda Europa e também na quase feudal e mais distante Rússia. O mundo estava em luta contra a aristocracia e observava o florescimento da industrialização em todos os países. Foram anos de grandes transformações econÓmicas e sociais.

No final do século XVIII, as monarquias europeias, capitaneadas pelo Sacro Império Romano, começaram a ser desafiadas pelas novas ideias revolucionÔrias. O ataque mais forte foi comandado por um ambicioso militar corso, Napoleão Bonaparte e suas guerras contra os impérios. Sua derrota, acontecida pela tentativa de subjugar a Rússia, foi maravilhosamente narrada por Tolstói em seu Guerra e Paz. Com Napoleão vencido, refluíram as monarquias, mas os ideais revolucionÔrios se mantiveram intactos entre as elites emergentes e classes trabalhadoras nas crescentes aglomerações urbanas. Durante muito tempo, estiveram juntos na luta contra as monarquias os burgueses emergentes e os trabalhadores em toda a Europa. Ao mesmo tempo, cresciam as ideias materialistas, cujos primeiros sinais haviam sido lançados pelo iluminismo, especialmente na Alemanha, Inglaterra e França. A literatura nestes países, por sua vez, deixava de ser folhetinesca para se integrar e frequentemente antecipar as demandas culturais.

A alianƧa entre as classes trabalhadoras e a burguesia se quebrou com as revoluƧƵes de 1848, que foi denominada Primavera dos Povos. Elas se espalharam por toda a Europa e tinham por objetivo derrubar definitivamente os regimes autocrĆ”ticos, enfrentar a misĆ©ria decorrente da Revolução Industrial que atraĆ­a cada vez mais pessoas para as cidades e a falta de representação polĆ­tica das classes mĆ©dias e dos nacionalistas. A revolução de 1848 na FranƧa Ć© apenas a mais visĆ­vel. Outras 50 naƧƵes tambĆ©m experimentaram movimentos locais, como a abolição da escravidĆ£o no ImpĆ©rio Austro-HĆŗngaro, o fim do absolutismo na Dinamarca, revoluƧƵes na Alemanha, PolĆ“nia, ItĆ”lia, GrĆ£-Bretanha, Espanha e Portugal. Na FranƧa, o movimento iniciou-se pelo que foi conhecido pelo nome de Comuna de Paris, o primeiro, e para muitos Ćŗnico, governo efetivamente popular da história. Ele levou inicialmente Ć  fuga da burguesia da cidade de Paris e a subsequente derrubada do novo regime pelas forƧas militares burguesas e prussianas. Culminou com a eleição do primeiro presidente, LuĆ­s Bonaparte, sobrinho de NapoleĆ£o, que, finalmente, tornou-se imperador. Trabalhadores e ativistas das suas causas foram perseguidos, sendo milhares deles assassinados e fuzilados, alĆ©m de mais de 30 mil exilados para as colĆ“nias francesas. Os acontecimentos desta Ć©poca, com a definitiva separação entre burguesia e classes trabalhadoras, motivaram a famosa afirmação de Marx, em seu Dezoito BrumĆ”rio:Ā ā€œHegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importĆ¢ncia na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragĆ©dia, a segunda como farsaā€.

Dostoiévski participou, na Rússia, da primeira onda destes movimentos. Influenciados pelo socialismo utópico e cristão dos franceses Fourrier e Saint-Simon, o Círculo de Petratchévski se reunia para discutir política, literatura e o fim da servidão. Nunca partiu para a ação, no entanto. A servidão somente chegou ao fim com a ascensão do Czar Alexandre, em 1861, implantando um modelo de propriedade e exploração compartilhada da terra.

Os eventos de 1848 na Europa tiveram profundos impactos no pensamento de Dostoiévski. Ele acusava o materialismo e seus consequentes niilismo, individualismo, socialismo racionalista e industrialismo, como o mal de siécle, não apenas no Ocidente, como também na sua santa mãe Rússia. Utilizou grande parte de sua literatura para atacar os movimentos radicais, tanto o nascente socialismo materialista e utópico, que agora partia para a ação, quanto o industrialismo burguês, que apontava para um mundo dominado pela ciência e tecnologia. Na sua compreensão, ambos afastavam as pessoas dos valores cristãos ortodoxos da vida em comunidade e do livre arbítrio. Praticamente todas as suas grandes obras representam a sua luta contra o racionalismo, o niilismo e o ocidentalismo que floresciam entre a juventude e a intelectualidade russas. De outro lado, escrevia e agia em defesa de um certo tipo de eslavismo fundado na ortodoxia da Igreja Ortodoxa, que acreditava possuir um poder regenerador da sociedade mundial, do modelo de organização camponesa baseada na comunidade, com o amor ao Czar-pai à frente e do livre arbítrio como valor essencial do sujeito, conforme pregado pelo Cristo dos Evangelhos.

3 – Fases da Literatura de DostoiĆ©vski

A obra literÔria de Dostoiévski é geralmente dividida pelos críticos em três fases: Novelas da Juventude, Obras de Transição e Romances da Maturidade. Não pretendo me alongar nesta anÔlise. Apenas listar estas obras conforme a maioria dos seus estudiosos as classificam.

Novelas da Juventude

Seu primeiro livro, Pobre Gente, foi escrito em 1846, quando tinha apenas 25 anos e teria tido por inspiração o romance O Capote, de Gógol. Como jÔ informei acima, o livro foi muito bem recebido pela crítica literÔria da época, especialmente pelo todo poderoso Vissarión Grigórievitch Belinski. As suas obras desta fase, consideradas românticas, revelam claras influências da literatura francesa da época, mas sobretudo de seu grande mestre Aleksandr Sergueievich Púchkin e de seu contemporâneo Nikolai Vasilievich Gógol. Sua identificação com estes foi tão grande que algumas de suas obras foram acusadas de serem meras cópias ou plÔgios destes autores. São caracterizadas por uma espécie de romantismo ingênuo, forte defesa dos valores românticos do povo camponês, e alguns sinais de combate à servidão. São todas obras menos volumosas. Alguns de seus críticos afirmam que estas obras jÔ continham as principais ideias que marcaram os grandes romances da maturidade. São as seguintes as novelas desta fase:

1846 – Pobre Gente, O Duplo, Senhor ProkhĆ”rtchin

1847 – Um Romance em Nove Cartas, A Dona da Casa

1848 – Noites Brancas, Polzunkov, Coração FrĆ”gil, O LadrĆ£o Honrado, A Mulher Alheia, A Ɓrvore de Natal, NiĆ©tochka NiezvĆ¢nova, O Pequeno Herói

1859 - O Sonho do Tio, A Granja de Stiepântchikovo

Obras de Transição

Dostoiévski passou 10 anos sem poder escrever, os quatro anos em que esteve preso na Sibéria e os restantes servindo como soldado num batalhão do exército, também na Sibéria. Sua experiência de quase morte, além do que ele afirmava ter sido sua convivência com os homens simples do povo russo, tiveram enorme influência na sua literatura a partir de então. Ela se torna mais densa, com forte cunho autobiogrÔfico e profundidade das características psicológicas dos personagens. De forma irÓnica, e às vezes cÓmica, passa a enfrentar o que considerava serem os principais problemas sócio culturais da Rússia de então. Nelas, os problemas elaborados romanticamente na fase anterior, estão presentes, mas ainda não com a força e profundidade de suas obras da maturidade. Mas esta fase jÔ estÔ repleta de textos da mais alta importância, como a sua experiência dos anos de confinamento (Memória da Casa dos Mortos), a crítica ao ideal tecnicista do Ocidente (Notas de Inverno... e O Crocodilo) e o ataque ao niilismo (Memórias do Subterrâneo). Toda a sua literatura, a partir de então, passou a necessitar de censura prévia, em razão de seu passado revolucionÔrio. Apesar de O Sonho do Tio e A Aldeia de Stiepântchikovo serem frequentemente incluídas nesta fase em função da data de publicação, alguns críticos preferem associar elas ainda ao romantismo característico da primeira fase. Optei por seguir a estrutura proposta por estes últimos.

1861 – Humilhados e Ofendidos

1862 – Memórias da Casa dos Mortos, Uma História Aborrecida

1863 – Notas de Inverno sobre ImpressƵes de VerĆ£o

1864 – Memórias do SubterrĆ¢neo

1865 – O Crocodilo

Romances da Maturidade

Esta fase se encerra com a morte de Dostoiévski, no início de 1881, logo após concluir Os Irmãos KaramÔzov. O autor atinge o topo de sua carreira literÔria e finca seu nome definitivamente entre os mais importantes escritores de todos os tempos. Junto com Memórias do Subterrâneo, da fase anterior, as obras desta fase formam as bases da filosofia existencialista e serviram de inspiração para inúmeros pensadores que se seguiram, com destaque para Nietzsche e Freud. São caracterizadas pela profundidade da psicologia dos seus personagens e pela anÔlise apurada dos principais conflitos sociais de sua época. Os limites da maldade humana e de suas razões, fundadas na racionalidade e niilismo, talvez não tenham recebido exposição melhor em toda a literatura universal. Também houve espaço, entretanto, para caracterizações da idealização do bem em romances como O Idiota e seu personagem central, o Príncipe Míchkin, e em personagens femininas, como a coxa e meio débil mental Maria, de Os DemÓnios, e a prostituta SÓnia, de Crime e Castigo, entre outras.

Esta época também foi dedicada por Dostoiévski ao planejamento do que ele considerava sua obra maior, A História de um Grande Pecador, que nunca foi concluída. Seus textos Crime e Castigo, Os DemÓnios e Os Irmãos KaramÔzov, às vezes são incluídos como parte deste plano. Neste período, o autor também escreveu alguns textos menores, como a do Mujique Marrei, para muitos uma espécie de memórias em torno da morte de seu próprio pai, e O Sonho de um Homem Ridículo, este considerada a única obra de Dostoiévski em que a maldade humana consegue alcançar algum tipo de redenção, através do amor fraternal.

1866 – Crime e Castigo

1867 – O Jogador

1869 – O Idiota

1870 – O Eterno Marido

1872 – Os DemĆ“nios

1875 – O Adolescente

1877 – O Sonho de um Homem RidĆ­culo

1881 – Os IrmĆ£os KaramĆ”zov

4 – SugestĆ£o para um Roteiro de Leitura

Ɖ claro que a gente sempre pode escolher, de forma aleatória, um ou outro romance de um escritor que produziu uma vasta obra, como Ć© o caso de DostoiĆ©vski. E Ć© assim que a maioria das pessoas faz, o que jĆ” Ć© muito bom, em se tratando de literatura clĆ”ssica. Na minha opiniĆ£o, no entanto, DostoiĆ©vski Ć© um daqueles autores que merecem uma mergulhada mais ampla em sua produção. Alguns de seus textos podem e, muitas vezes, devem ser lidos mais de uma vez. A cada nova leitura, novas descobertas sĆ£o feitas, novos olhares sĆ£o descortinados, novos personagens sĆ£o melhor compreendidos. A literatura clĆ”ssica Ć© repleta de exemplos de autores que merecem ser estudados e lidos de forma abrangente e aprofundada: Shakespeare, Tolstói, Flaubert, Proust, Kafka, Camus e os brasileiros Machado de Assis e Graciliano Ramos, entre outros.

Como salientei logo na introdução, Dostoiévski não é fÔcil ou simples. Seu texto é complexo e, para dizer o mínimo, exige atenção e determinação. Alguns de seus grandes romances requerem semanas de leitura, mesmo daquelas pessoas jÔ mais acostumadas ao autor. Além disso, pode ser bastante complicado compreender as psicologias dos personagens, seus conflitos pessoais e com a sociedade, sem ter um mínimo de entendimento do contexto sócio cultural da época em que foram escritos, os valores e crenças do autor e suas próprias dificuldades de vida. Estes são conselhos valiosos para compreender qualquer grande escritor. Por conta disso, procurei dispor este artigo de uma forma que facilite a compreensão da literatura de Dostoiévski aos iniciantes e mesmo a alguns dos jÔ um pouco mais iniciados, como foi o meu próprio caso na segunda leitura de sua obra. Além disso, para que o leitor não se desespere diante da complexidade de alguns textos, como Os DemÓnios, ou da aparente pieguice romântica de outros, como Noites Brancas ou Niétochka Niezvânova, preparei um roteiro de leitura na intenção de ajudar àqueles que desejam se dedicar a ampliar o conhecimento de sua obra. O roteiro segue a ideia de que os leitores irão buscar uma melhor compreensão dos grandes romances de Dostoiévski, pelo menos os mais conhecidos, como Os Irmãos KaramÔzov e Crime e Castigo.

Minha sugestão de roteiro começa por Memórias da Casa dos Mortos, uma espécie de resumo das anotações e impressões que Dostoiévski teve de seus companheiros de prisão na Sibéria. O próprio autor revela que aqueles anos lhe permitiram a compreensão da alma do povo pobre russo, sua religiosidade, seu amor à santa mãe Rússia e seu apego à liberdade, mesmo que seja somente em pensamento, dadas as condições materiais da prisão.

Em seguida, sugiro a leitura de Notas de Inverno sobre Impressões de Verão e de Memórias do Subterrâneo. Estas duas obras revelam os dois principais adversÔrios contra os quais Dostoiévski irÔ lutar nas suas obras posteriores: a racionalidade tecnicista importada do Ocidente, no primeiro, e os efeitos psicológicos do niilismo sobre a personalidade e sobre a sociedade, no segundo. Especialmente Memórias do Subterrâneo, que estÔ na base do Homem do Ressentimento, de Nietzche, e teria contribuído para a construção da ideia de inconsciente por Freud. Em Dostoiévski, este texto discute os efeitos, para o indivíduo e para a sociedade, dos conflitos entre a pregação ingênua e totalitÔria de uma racionalidade humana fornecida de fora para dentro, sugerida por Tchernichévski, em seu O que Fazer?  e os valores intrínsecos e ironicamente irracionais do livre arbítrio cristão.

A partir daqui, o leitor estarÔ pronto para se aventurar nos grandes romances de Dostoiévski, como Os Irmão KaramÔzov, Crime e Castigo e Os DemÓnios. Não vou me estender sobre estes textos, porque cada um deles nos exigiria inúmeras pÔginas de anÔlise. Prometo voltar a eles em algum momento futuro. Se o leitor desejar, pode entremear estas leituras com alguns textos mais fÔceis de assimilar, como Pobre Gente e seu romantismo relativamente ingênuo e algumas novelas jÔ da maturidade, como O Eterno Marido e O Jogador. O último deles, em especial, tem um apelo autobiogrÔfico bem interessante, na medida em que Dostoiévski, além das dificuldades financeiras e da epilepsia, era também um viciado no jogo, que não observava limites (em uma ocasião, em Dresden, chegou mesmo a empenhar o casaco de sua esposa). O interessante de sua personalidade é que o vício só se revelava quando estava fora da Rússia.

O Idiota, no entanto, Ć© uma leitura Ć  parte. Todo escrito no exterior, tendo sido iniciado em Genebra e concluĆ­do em FlorenƧa, em 1869, o romance foi aparecendo parceladamente na revista O Mensageiro Russo. NĆ£o obedece uma narrativa ordenada e lógica, perdendo-se muitas vezes em episódios Ć  margem, talvez em função da forma como foi sendo escrito e publicado, em viagem constante. O seu personagem central, o PrĆ­ncipe MĆ­chkin Ć©, sem dĆŗvida, uma das figuras mais estranhas, mais ambĆ­guas, mais inexplicĆ”veis e mĆ­sticas de todas as suas criaƧƵes. Ele possui muito de suas próprias caracterĆ­sticas, como a epilepsia, o episódio da sua condenação Ć  morte por fuzilamento e salvação no Ćŗltimo instante e as suas emoƧƵes artĆ­sticas com a obra de Holbein, a Descida da Cruz. Ɖ um personagem definitivamente indecifrĆ”vel: um epilĆ©ptico? Um retardado mental? Um idiota? Ao mesmo tempo era uma criatura excepcional, procurada por todos quando necessitavam de decisƵes difĆ­ceis, mesmo que tambĆ©m zombassem dele. Sua bondade inumana, capacidade de sofrer o sofrimento alheio e amor pelos mais fracos e humildes, em especial as crianƧas, fizeram com que, para muitos crĆ­ticos, fosse comparado ao próprio Cristo. NĆ£o Ć© o Cristo, mas a sua existĆŖncia humana remete a outra existĆŖncia que nĆ£o Ć© humana, a do Homem-Deus. Seu valor literĆ”rio vai tambĆ©m na direção de revelar toda a religiosidade de DostoiĆ©vski e sua visĆ£o do cristianismo.

Finalmente, mas não menos importante, recomendo a leitura de O Sonho de Um Homem Ridículo. Trata-se de um texto bastante mais reduzido do que os demais e sua importância decorre do fato de ser o único momento em toda a literatura da Dostoiévski em que a maldade humana tem a oportunidade de alcançar algum tipo de redenção. Esta é alcançada através de uma espécie de amor comunitÔrio, um amor desprovido de interesses e genuinamente cristão. Ao final não se tem certeza se esta redenção acontece realmente ou se somente se realiza no sonho de morte do personagem.

Desejo a todos uma ótima leitura deste que é, sem a menor dúvida, um dos maiores escritores de todos os tempos. Para mim, como jÔ afirmei, inigualÔvel!

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